domingo, 31 de agosto de 2008

Setembro chegou!

SOL DE PRIMAVERA

Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Quando entrar Setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou (Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção (Que venha nos trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção (Que venha trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Abaixo o Mau Humor


Mau humor, felizmente, não é minha praia.
Por isso, estranho muito aqueles dias em que a irritação contamina meu modo de ver o mundo e tratar as pessoas. Mas tive vários dias assim nos últimos meses - e fui resgatada por uma combinação peculiar de acontecimentos: um tratamento com antibióticos e um convite para um programa de TV sobre o mau humor.
Como falar sobre o mau humor (ou qualquer outro tópico) requer primeiro uma definição, encontrei-me criando uma, já que os dicionários não ajudaram. Vejamos: sabemos por experiência própria que o mau humor é um estado desagradável de irritabilidade. Se essa palavra não diz muito sobre o cérebro, o que a acompanha é mais bem conhecido pela neurociência: uma propensão à raiva e à agressividade.
O mau humor, portanto, deve ser um estado de predisposição a reagirmos com agressividade, ironia e impaciência a comentários e situações que normalmente não nos tirariam do sério.
A agressividade, por sua vez, emerge de zonas antigas do cérebro que controlam comportamentos sociais, incluindo a amígdala e o hipotálamo. Nas horas certas, respostas impulsivamente agressivas têm sua função: demarcam nosso território, protegem nossa integridade, enfrentam quem nos ameaça. Mas, se a ameaça não é real ou se uma resposta agressiva não é uma boa idéia, o córtex pré-frontal tenta inibir nossos impulsos - e de uma maneira, aliás, que depende de serotonina.
Por isso, antidepressivos que modificam os níveis de serotonina no cérebro são eficazes para controlar a raiva, a agressividade e o mau humor desajustados.
Claro que cada um tem suas tendências e uma facilidade maior ou menor de espantar o mau humor causado por operadores de telemarketing, fechadas de carro, barulho e até variações hormonais. Aliás, o mau humor, se passageiro e controlável, não é doença. Mas pode ser causado por uma, como eu descobri.
Ao tratar com antibióticos uma sinusite que durava meses e me fazia passar os dias com a sensação de que dois dedos me afundavam a face, amanheci um dia achando o mundo... belo. Não havia mais pressão no rosto nem dor - nem a necessidade de policiar ímpetos raivosos.
Com a cabeça agora clara, pensar no assunto fez cair a ficha: meu problema dos dias anteriores, tão estranho para mim, era mau humor, causado provavelmente por interleucinas produzidas pelo meu sistema imune em resposta a uma infecção. A sinusite, literalmente, me subiu à cabeça.

Texto de SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, professora da UFRJ e autora do livro "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (ed. Sextante) e do site "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (http://www.cerebronosso.bio.br/)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sobre o Envelhecer


No momento em que o mundo se volta às eleições americanas, quando pela primeira vez na História um negro, de origem queniana, está prestes a se tornar presidente dos Estados Unidos da América, destacamos a presença de uma mulher negra, poetisa renomada, que tem muito a nos dizer sobre o envelhecer, feliz e produtivamente. A curta biografia, a seguir, é de autoria de Mauro Catopodis, poeta carioca:

"Maya Angelou é talvez a figura mais vibrante da poesia contemporânea nos Estados Unidos. Nascida Marguerite Johnson em 1928, foi violentada pelo namorado da mãe quando tinha 7 anos. Aos 17, tornou-se mãe solteira ao dar a luz ao seu primeiro filho, numa época em que, obviamente, isso não era visto com naturalidade. No mesmo ano, tornou-se a primeira motorista negra de ônibus (streecars) em São Francisco, Califórnia. Foi também cozinheira e cafetina até, finalmente, entrar no meio artístico, a princípio como dançarina e cantora em um cabaret. Nos anos 50, já usando o pseudônimo Maya Angelou, ela se afirmou como atriz, cantora e dançarina em várias montagens teatrais que percorreram o país, tais como Porgy and Bess, Calypso Heatwave, The Blacks e Cabaret for Freedom. Nos anos 60, começa a escrever suas próprios peças teatrais. Na década seguinte, já um nome conhecido nos meios culturais, é convidada a narrar os dez capítulos de um especial para a televisão sobre a influência do elemento africano nos Estados Unidos. Publica livros de poesia e recebe uma indicação para o Pulitzer. Trabalha também como narradora, entrevistadora e apresentadora em vários programas de televisão e teatro sobre a situação do negro nos Estados Unidos. Recebe uma indicação para o prêmio Tony de teatro por sua atuação na peça Look Away na Broadway. Nos anos 80, publica vários livros de poesia e uma série autobiográfica que atinge consagração quase instantânea, colocando-a na lista de best-sellers por vários meses, um feito até então inédito para uma mulher negra. Recebe a premiação Emmy da televisão por sua atuação na série Raízes, sobre a história do escravidão na America do Norte. Nos anos 80, a convite de Bill Clinton, prepara um longo poema (On the Pulse of Morning) e o lê na cerimônia de posse do presidente, outro feito inédito. Recebe o Grammy de melhor texto recitado pela leitura de seu poema na posse presidencial. Maya hoje mora em Winston-Salem, Carolina do Norte, onde trabalha como professora convidada da universidade local e escreve seus poemas fora de casa, em um quarto alugado de hotel, único lugar onde, segunda ela, ainda consegue o isolamento que precisa para escrever. É justo dizer que, hoje, nenhum outro poeta contemporâneo nos Estados Unidos pode ser comparado à popularidade que Maya Angelou conquistou, feito este amplamente atestado pela grande vendagem de seus livros de poesia. "
Entrevistada por Oprah Winfrey na passagem de seu 79o. aniversário, Maya Angelou, comentando sobre as mudanças no corpo, disse que há muitas a cada dia. Como os peitos, que estão competindo um com o outro para ver qual chega primeiro à cintura. A platéia riu de chorar.Uma das grandes vozes do nosso tempo, Maya Angelou é uma mulher simples, direta, cheia de sabedoria. Alguns exemplos:

Aprendi que aconteça o que acontecer, pode até parecer ruim hoje, mas a vida continua e amanhã melhora.

Aprendi que dá para descobrir muita coisa a respeito de uma pessoa, observando-se como ela lida com três coisas: dia de chuva, bagagem perdida, luzes de árvore de Natal emboladas.

Aprendi que, independentemente da relação que você tenha com seus pais, vai ter saudade deles quando se forem.

Aprendi que 'ganhar a vida' [making a living] não é o mesmo que 'ter uma vida' [making a life].

Aprendi que a vida às vezes nos oferece uma segunda oportunidade.

Aprendi que a gente não deve viver tentando agarrar tudo pela vida afora; tem que saber abrir mão de algumas coisas.

Aprendi que quando decido alguma coisa com o coração, em geral vem a ser a decisão correta.

Aprendi que mesmo quando tenho dores, não tenho que ser um saco.

Aprendi que todo dia a gente deve estender a mão e tocar alguém. As pessoas adoram um abraço apertado, ou mesmo um simples tapinha nas costas.

Aprendi que ainda tenho muito que aprender.

Aprendi que as pessoas esquecem o que você diz, esquecem o que você faz, mas não esquecem como você faz com que se sintam.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Desculpas ao Esporte e ao Atleta Brasileiro


Desculpem pela falta de espaços esportivos nas escolas;
pela falta de professores de educação física nas séries iniciais;
pelas escolinhas mercantilizadas que buscam quantidade de clientes
e não qualidade de aprendizagem.
Desculpem pela falta de incentivo na base.
Desculpem pela falta de praças esportivas.

Desculpem pelo discurso de que “o esporte serve para tirar a criança da rua” (é muito pouco se for só isso!); desculpem pela violência nas ruas que impede jovens de brincar livremente, tirando deles a oportunidade de vivenciar experiências motoras; desculpem se muito cedo lhe tiraram o “esporte-brincadeira” e lhe impuseram o “esporte-profissão”; desculpem pelo investimento apenas na fase adulta quando já conseguiram provar que valia a pena.

Desculpem pelas centenas de talentos desperdiçados por não terem condições mínimas de pagar um transporte para ir ao treino, de se alimentar adequadamente, ou de pagar um “exame de faixa”; desculpem por não permitirmos que estudem para poder se dedicar integralmente aos treinos.
Desculpem pelo sacrifício imposto aos seus pais que dedicaram seus poucos recursos para investir em algo que deveria ser oferecido gratuitamente.

Desculpem levá-los a acreditar que o esporte é uma das poucas maneiras de ascensão social para a classe menos favorecida no nosso país; desculpem pela incompetência dos nossos dirigentes esportivos; desculpem pelos dirigentes que se eternizam no poder sem apresentar novas propostas; desculpem pelos dirigentes que desviam verbas em benefício próprio; desculpem pela falta de uma política nacional voltada para o esporte.

Desculpem por só nos preocuparmos com leis voltadas para o futebol (Lei Zico, Lei Pelé, etc.); desculpem se a única lei que conhecem ligada ao esporte é a “Lei do Gérson” (coitado do Gérson); desculpem pelos secretários de esporte de “ocasião”, cujas escolhas visam atender apenas, promessas de ocupação de espaços político-partidários (e com pouca verba no orçamento); desculpem pelos políticos que os recebem antes ou após grandes feitos (apenas os vencedores) para usá-los como instrumento de marketing político.

Desculpem por pensar em organizar “Olimpíadas”, se ainda não conseguimos organizar nossos ministérios, nossas secretarias, nossas federações, nossa legislação esportiva; desculpem por forçá-los, contra a vontade, a se “exilarem” no exterior caso pretendem se aprimorar no esporte; desculpem pela cobrança indevida de parte da imprensa que pouco conhece e opina pelo senso comum; desculpem o povo brasileiro carente de ídolos e líderes por depositar em vocês toda a sua esperança.

Desculpem pela nossa paixão pelo esporte, que como toda paixão, nem sempre é baseada na razão; desculpem por levá-los do céu ao inferno em cada competição, pela expectativa criada; desculpem pelo rápido esquecimento quando partimos em busca de novos ídolos; desculpem pelas lágrimas na derrota, ou na vitória, pois é a forma que temos para extravasar o inexplicável orgulho de ser brasileiro e de, apesar de tudo, acreditar que um dia ainda estaremos
entre os grandes.


Texto de Edward de Souza, sensibilizado com os pedidos de desculpas dos atletas brasileiros por não obterem medalhas nas recentes Olimpíadas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

AS AMAZONAS



Existe uma lenda antiga que fala das Amazonas, uma tribo só de mulheres, bravas guerreiras, que viviam numa comunidade onde não existiam homens. Elas procuravam homens em outras tribos apenas para acasalar e procriar. Uma sociedade só de mulheres, já pensou?

Pois parece que essa possibilidade existe. Li um estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo indicando que quanto maior o índice de poluição, maior a desproporção entre o nascimento de meninos e meninas. O estudo levantou os registros de nascimentos na cidade de São Paulo entre 2001 e 2003 em três áreas, classificadas de acordo com a poluição do ar. Onde a poluição era alta, a proporção de nascimentos de meninos era 1% menor do que na região menos poluída. Na área mais poluída, nasceram 1.180 meninos a menos do que na menos poluída.

Fico com o pé atrás com essas pesquisas, que normalmente confundem correlações com causalidades, mas é interessante acompanhar sua lógica. Os pesquisadores acreditam que os óvulos protegem-se melhor da influência da poluição do que os espermatozóides. E que os cromossomos que dão origem ao sexo feminino levam vantagem. Numa experiência com camundongos, a diferença chegou a 24% menos machos do que fêmeas. Pode?

Como se não bastassem a emissão de CO2, a sujeira da fuligem e as doenças respiratórias, a poluição ainda extingue os homens! Imagine que aquele cano de escapamento do carro que está à sua frente significa um menino a menos no futuro. No ritmo em que vamos, em breve só nascerão mulheres!Mas esse lance da poluição acabar com os homens talvez seja apenas o golpe de misericórdia. O mundo já é das mulheres, falta apenas reconhecer.

Vocês já notaram como elas vêm tomando conta de todas as áreas? Num evento para um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, cheguei ao hotel junto com os ônibus que traziam mais de uma centena de funcionários. Abrem-se as portas e a cada dez que descem, sete são mulheres. Pergunto a um dos diretores se existe alguma política que privilegie a contratação de mulheres e ele diz que não: “elas ganham dos homens nos processos de recrutamento e seleção.”

Pouco depois participei de uma coletiva de imprensa no Rio Grande do Sul. A grande maioria dos jornalistas-machos estava mais interessada no almoço, nos brindes e no bate-papo. Enfastiados, desinteressados e desatualizados, faziam perguntas protocolares, de olho no garçon. Enquanto isso as jornalistas-fêmeas, de bloquinho em punho, encantadoras e exigentes, queriam saber de tudo. E dispensavam o almoço, pois “tinham que voltar para a redação”.

As mulheres estão se revelando mais interessadas, mais inteligentes, mais profissionais, mais curiosas, mais confiáveis, menos violentas e mais éticas que os homens. E são mais atraentes.

O que estará acontecendo com os brucutus? Conformaram-se em ficar para trás? Acomodaram-se? Ou simplesmente não enxergam?

Ou talvez estejamos apenas vendo as mulheres recuperando o tempo perdido durante os séculos em que foram subjugadas por uma sociedade machista?

Não sei. Mas a perspectiva de uma sociedade onde o poder seja compartilhado entre homens e mulheres me fascina. Ao atingir o equilíbrio, teremos um mundo bem diferente deste que conhecemos. Melhor, menos bruto e mais confiável.

No entanto, ao ler a tal pesquisa fiquei preocupado. Talvez não dê tempo para o equilíbrio. Faltarão homens. Pelo estudo da USP, o destino deles é virar fumaça.

Texto de Luciano Pires, em http://www.lucianopires.com.br/
Imagem: Tela de Pablo Picasso, "Les Demoiselles d'Avignon", 1907.

sábado, 16 de agosto de 2008

Lei Seca no Trânsito


Lei seca no trânsito Tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos e sair por aí pilotando uma máquina?

Gosto de beber e confesso sem o menor sentimento de culpa. Álcool, de vez em quando, em quantidade pequena, dá prazer sem fazer mal à maioria das pessoas. Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Casa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira. Essa é a vantagem em relação às bebidas adocicadas que você bebe feito refresco, sem se dar conta das conseqüências. Cachaça impõe respeito, o usuário sabe com quem está lidando: exagerou, é vexame na certa.

Cerveja, tomo de vez em quando. O primeiro gole é um bálsamo para o espírito no calor, depois de um dia de trabalho e horas no trânsito, transporta o cidadão do inferno para o paraíso. O gole seguinte já não é igual, infelizmente. A segunda latinha decepciona, deixa até um resíduo amargo a terceira encharca.

Uísque e vodca, só tenho em casa para oferecer às visitas.

De vinho eu gosto, mas tomo pouco, porque pesa no estômago. Além disso, meu paladar primitivo não permite reconhecer notas de baunilha ou sabores trufados não tenho idéia do que seja uma trava sutil de tanino, nem o aroma de cassis pisado, nem o frescor de framboesas do campo. Em meu embotamento olfato-gustativo, faço coro com os que admitem apenas três comentários diante de um copo de vinho: é bom, é ruim, e bebe e não enche o saco.

Feita essa premissa, quero deixar claro ser a favor da chamada lei seca no trânsito. Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores, o equilíbrio e a percepção espacial de objetos em movimento e sair por aí pilotando uma máquina na qual uma pequena desatenção pode trazer conseqüências fúnebres?Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe, talvez possa dizer que meia garrafa de vinho, três chopes ou uísques não interferem na sua habilidade ao volante.

Tudo bem: vamos admitir que, no seu caso, seja verdade, que você tenha maior resistência aos efeitos neurológicos e comportamentais do álcool e que seria aprovado em qualquer teste de resposta motora.Imagino, entretanto, que você tenha idéia da diversidade existente entre os seres humanos.

Quantas mulheres e quantos homens cada um de nós conhece para os quais uma dose basta para transtorná-los?

Quantos, depois de duas cervejas, choram, abraçam os companheiros de mesa e fazem declarações de amizade inquebrantável? Está certo permitir que esses, fisiologicamente mais sensíveis à ação do álcool, saiam por aí colocando em perigo a vida alheia?

Como seria a lei, então? Deveria avaliar as aptidões metabólicas e os reflexos de cada um para selecionar quem estaria apto a dirigir alcoolizado? O Detran colocaria um adesivo em cada carro estabelecendo os limites de consumo de álcool para aquele motorista? Ou viria carimbado na carteira de habilitação?

Talvez você possa estar de acordo com a argumentação dos advogados que defendem os interesses dos proprietários de bares e casas noturnas: "A nova lei atenta contra a liberdade individual".

Aí, começo a desconfiar de sua perspicácia. Restrições à liberdade de beber num país que vende a dose de pinga a R$ 0,50? Há escassez de botequins nas cidades brasileiras, por acaso? Existe sociedade mais complacente com o abuso de álcool do que a nossa?Mas pode ser que você tenha preocupações sociais com a queda de movimento nos bares e com o desemprego no setor.

A julgar por essa lógica, vou mais longe. Como as estatísticas dos hospitais públicos têm demonstrado nos últimos fins de semana, poderá haver desemprego também entre motoristas de ambulâncias, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, agentes funerários, operários que fabricam cadeiras de rodas, sondas urinárias e outros dispositivos para deficientes físicos.

No ano passado, em nosso país, perderam a vida em acidentes de trânsito 17 mil pessoas. Ainda que apenas uma dessas mortes fosse evitada pela proibição de beber e dirigir, haveria justificativa plena para a criação da lei agora posta em prática.

Não é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que ele faz a si mesmo. Quer beber até cair na sarjeta? Pode. Quer se jogar pela janela? Quem vai impedir?

Mas é dever inalienável do Estado protegê-lo contra o mal que terceiros possam causar a ele.

Texto do Dr. Dráuzio Varella, publicado no Jornal "Folha de São Paulo", em 19/07/2008