domingo, 31 de agosto de 2008

Setembro chegou!

video
SOL DE PRIMAVERA

Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Quando entrar Setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou (Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção (Que venha nos trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção (Que venha trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Abaixo o Mau Humor


Mau humor, felizmente, não é minha praia.
Por isso, estranho muito aqueles dias em que a irritação contamina meu modo de ver o mundo e tratar as pessoas. Mas tive vários dias assim nos últimos meses - e fui resgatada por uma combinação peculiar de acontecimentos: um tratamento com antibióticos e um convite para um programa de TV sobre o mau humor.
Como falar sobre o mau humor (ou qualquer outro tópico) requer primeiro uma definição, encontrei-me criando uma, já que os dicionários não ajudaram. Vejamos: sabemos por experiência própria que o mau humor é um estado desagradável de irritabilidade. Se essa palavra não diz muito sobre o cérebro, o que a acompanha é mais bem conhecido pela neurociência: uma propensão à raiva e à agressividade.
O mau humor, portanto, deve ser um estado de predisposição a reagirmos com agressividade, ironia e impaciência a comentários e situações que normalmente não nos tirariam do sério.
A agressividade, por sua vez, emerge de zonas antigas do cérebro que controlam comportamentos sociais, incluindo a amígdala e o hipotálamo. Nas horas certas, respostas impulsivamente agressivas têm sua função: demarcam nosso território, protegem nossa integridade, enfrentam quem nos ameaça. Mas, se a ameaça não é real ou se uma resposta agressiva não é uma boa idéia, o córtex pré-frontal tenta inibir nossos impulsos - e de uma maneira, aliás, que depende de serotonina.
Por isso, antidepressivos que modificam os níveis de serotonina no cérebro são eficazes para controlar a raiva, a agressividade e o mau humor desajustados.
Claro que cada um tem suas tendências e uma facilidade maior ou menor de espantar o mau humor causado por operadores de telemarketing, fechadas de carro, barulho e até variações hormonais. Aliás, o mau humor, se passageiro e controlável, não é doença. Mas pode ser causado por uma, como eu descobri.
Ao tratar com antibióticos uma sinusite que durava meses e me fazia passar os dias com a sensação de que dois dedos me afundavam a face, amanheci um dia achando o mundo... belo. Não havia mais pressão no rosto nem dor - nem a necessidade de policiar ímpetos raivosos.
Com a cabeça agora clara, pensar no assunto fez cair a ficha: meu problema dos dias anteriores, tão estranho para mim, era mau humor, causado provavelmente por interleucinas produzidas pelo meu sistema imune em resposta a uma infecção. A sinusite, literalmente, me subiu à cabeça.

Texto de SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, professora da UFRJ e autora do livro "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (ed. Sextante) e do site "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (http://www.cerebronosso.bio.br/)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sobre o Envelhecer


No momento em que o mundo se volta às eleições americanas, quando pela primeira vez na História um negro, de origem queniana, está prestes a se tornar presidente dos Estados Unidos da América, destacamos a presença de uma mulher negra, poetisa renomada, que tem muito a nos dizer sobre o envelhecer, feliz e produtivamente. A curta biografia, a seguir, é de autoria de Mauro Catopodis, poeta carioca:

"Maya Angelou é talvez a figura mais vibrante da poesia contemporânea nos Estados Unidos. Nascida Marguerite Johnson em 1928, foi violentada pelo namorado da mãe quando tinha 7 anos. Aos 17, tornou-se mãe solteira ao dar a luz ao seu primeiro filho, numa época em que, obviamente, isso não era visto com naturalidade. No mesmo ano, tornou-se a primeira motorista negra de ônibus (streecars) em São Francisco, Califórnia. Foi também cozinheira e cafetina até, finalmente, entrar no meio artístico, a princípio como dançarina e cantora em um cabaret. Nos anos 50, já usando o pseudônimo Maya Angelou, ela se afirmou como atriz, cantora e dançarina em várias montagens teatrais que percorreram o país, tais como Porgy and Bess, Calypso Heatwave, The Blacks e Cabaret for Freedom. Nos anos 60, começa a escrever suas próprios peças teatrais. Na década seguinte, já um nome conhecido nos meios culturais, é convidada a narrar os dez capítulos de um especial para a televisão sobre a influência do elemento africano nos Estados Unidos. Publica livros de poesia e recebe uma indicação para o Pulitzer. Trabalha também como narradora, entrevistadora e apresentadora em vários programas de televisão e teatro sobre a situação do negro nos Estados Unidos. Recebe uma indicação para o prêmio Tony de teatro por sua atuação na peça Look Away na Broadway. Nos anos 80, publica vários livros de poesia e uma série autobiográfica que atinge consagração quase instantânea, colocando-a na lista de best-sellers por vários meses, um feito até então inédito para uma mulher negra. Recebe a premiação Emmy da televisão por sua atuação na série Raízes, sobre a história do escravidão na America do Norte. Nos anos 80, a convite de Bill Clinton, prepara um longo poema (On the Pulse of Morning) e o lê na cerimônia de posse do presidente, outro feito inédito. Recebe o Grammy de melhor texto recitado pela leitura de seu poema na posse presidencial. Maya hoje mora em Winston-Salem, Carolina do Norte, onde trabalha como professora convidada da universidade local e escreve seus poemas fora de casa, em um quarto alugado de hotel, único lugar onde, segunda ela, ainda consegue o isolamento que precisa para escrever. É justo dizer que, hoje, nenhum outro poeta contemporâneo nos Estados Unidos pode ser comparado à popularidade que Maya Angelou conquistou, feito este amplamente atestado pela grande vendagem de seus livros de poesia. "
Entrevistada por Oprah Winfrey na passagem de seu 79o. aniversário, Maya Angelou, comentando sobre as mudanças no corpo, disse que há muitas a cada dia. Como os peitos, que estão competindo um com o outro para ver qual chega primeiro à cintura. A platéia riu de chorar.Uma das grandes vozes do nosso tempo, Maya Angelou é uma mulher simples, direta, cheia de sabedoria. Alguns exemplos:

Aprendi que aconteça o que acontecer, pode até parecer ruim hoje, mas a vida continua e amanhã melhora.

Aprendi que dá para descobrir muita coisa a respeito de uma pessoa, observando-se como ela lida com três coisas: dia de chuva, bagagem perdida, luzes de árvore de Natal emboladas.

Aprendi que, independentemente da relação que você tenha com seus pais, vai ter saudade deles quando se forem.

Aprendi que 'ganhar a vida' [making a living] não é o mesmo que 'ter uma vida' [making a life].

Aprendi que a vida às vezes nos oferece uma segunda oportunidade.

Aprendi que a gente não deve viver tentando agarrar tudo pela vida afora; tem que saber abrir mão de algumas coisas.

Aprendi que quando decido alguma coisa com o coração, em geral vem a ser a decisão correta.

Aprendi que mesmo quando tenho dores, não tenho que ser um saco.

Aprendi que todo dia a gente deve estender a mão e tocar alguém. As pessoas adoram um abraço apertado, ou mesmo um simples tapinha nas costas.

Aprendi que ainda tenho muito que aprender.

Aprendi que as pessoas esquecem o que você diz, esquecem o que você faz, mas não esquecem como você faz com que se sintam.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Desculpas ao Esporte e ao Atleta Brasileiro


Desculpem pela falta de espaços esportivos nas escolas;
pela falta de professores de educação física nas séries iniciais;
pelas escolinhas mercantilizadas que buscam quantidade de clientes
e não qualidade de aprendizagem.
Desculpem pela falta de incentivo na base.
Desculpem pela falta de praças esportivas.

Desculpem pelo discurso de que “o esporte serve para tirar a criança da rua” (é muito pouco se for só isso!); desculpem pela violência nas ruas que impede jovens de brincar livremente, tirando deles a oportunidade de vivenciar experiências motoras; desculpem se muito cedo lhe tiraram o “esporte-brincadeira” e lhe impuseram o “esporte-profissão”; desculpem pelo investimento apenas na fase adulta quando já conseguiram provar que valia a pena.

Desculpem pelas centenas de talentos desperdiçados por não terem condições mínimas de pagar um transporte para ir ao treino, de se alimentar adequadamente, ou de pagar um “exame de faixa”; desculpem por não permitirmos que estudem para poder se dedicar integralmente aos treinos.
Desculpem pelo sacrifício imposto aos seus pais que dedicaram seus poucos recursos para investir em algo que deveria ser oferecido gratuitamente.

Desculpem levá-los a acreditar que o esporte é uma das poucas maneiras de ascensão social para a classe menos favorecida no nosso país; desculpem pela incompetência dos nossos dirigentes esportivos; desculpem pelos dirigentes que se eternizam no poder sem apresentar novas propostas; desculpem pelos dirigentes que desviam verbas em benefício próprio; desculpem pela falta de uma política nacional voltada para o esporte.

Desculpem por só nos preocuparmos com leis voltadas para o futebol (Lei Zico, Lei Pelé, etc.); desculpem se a única lei que conhecem ligada ao esporte é a “Lei do Gérson” (coitado do Gérson); desculpem pelos secretários de esporte de “ocasião”, cujas escolhas visam atender apenas, promessas de ocupação de espaços político-partidários (e com pouca verba no orçamento); desculpem pelos políticos que os recebem antes ou após grandes feitos (apenas os vencedores) para usá-los como instrumento de marketing político.

Desculpem por pensar em organizar “Olimpíadas”, se ainda não conseguimos organizar nossos ministérios, nossas secretarias, nossas federações, nossa legislação esportiva; desculpem por forçá-los, contra a vontade, a se “exilarem” no exterior caso pretendem se aprimorar no esporte; desculpem pela cobrança indevida de parte da imprensa que pouco conhece e opina pelo senso comum; desculpem o povo brasileiro carente de ídolos e líderes por depositar em vocês toda a sua esperança.

Desculpem pela nossa paixão pelo esporte, que como toda paixão, nem sempre é baseada na razão; desculpem por levá-los do céu ao inferno em cada competição, pela expectativa criada; desculpem pelo rápido esquecimento quando partimos em busca de novos ídolos; desculpem pelas lágrimas na derrota, ou na vitória, pois é a forma que temos para extravasar o inexplicável orgulho de ser brasileiro e de, apesar de tudo, acreditar que um dia ainda estaremos
entre os grandes.


Texto de Edward de Souza, sensibilizado com os pedidos de desculpas dos atletas brasileiros por não obterem medalhas nas recentes Olimpíadas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

AS AMAZONAS



Existe uma lenda antiga que fala das Amazonas, uma tribo só de mulheres, bravas guerreiras, que viviam numa comunidade onde não existiam homens. Elas procuravam homens em outras tribos apenas para acasalar e procriar. Uma sociedade só de mulheres, já pensou?

Pois parece que essa possibilidade existe. Li um estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo indicando que quanto maior o índice de poluição, maior a desproporção entre o nascimento de meninos e meninas. O estudo levantou os registros de nascimentos na cidade de São Paulo entre 2001 e 2003 em três áreas, classificadas de acordo com a poluição do ar. Onde a poluição era alta, a proporção de nascimentos de meninos era 1% menor do que na região menos poluída. Na área mais poluída, nasceram 1.180 meninos a menos do que na menos poluída.

Fico com o pé atrás com essas pesquisas, que normalmente confundem correlações com causalidades, mas é interessante acompanhar sua lógica. Os pesquisadores acreditam que os óvulos protegem-se melhor da influência da poluição do que os espermatozóides. E que os cromossomos que dão origem ao sexo feminino levam vantagem. Numa experiência com camundongos, a diferença chegou a 24% menos machos do que fêmeas. Pode?

Como se não bastassem a emissão de CO2, a sujeira da fuligem e as doenças respiratórias, a poluição ainda extingue os homens! Imagine que aquele cano de escapamento do carro que está à sua frente significa um menino a menos no futuro. No ritmo em que vamos, em breve só nascerão mulheres!Mas esse lance da poluição acabar com os homens talvez seja apenas o golpe de misericórdia. O mundo já é das mulheres, falta apenas reconhecer.

Vocês já notaram como elas vêm tomando conta de todas as áreas? Num evento para um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, cheguei ao hotel junto com os ônibus que traziam mais de uma centena de funcionários. Abrem-se as portas e a cada dez que descem, sete são mulheres. Pergunto a um dos diretores se existe alguma política que privilegie a contratação de mulheres e ele diz que não: “elas ganham dos homens nos processos de recrutamento e seleção.”

Pouco depois participei de uma coletiva de imprensa no Rio Grande do Sul. A grande maioria dos jornalistas-machos estava mais interessada no almoço, nos brindes e no bate-papo. Enfastiados, desinteressados e desatualizados, faziam perguntas protocolares, de olho no garçon. Enquanto isso as jornalistas-fêmeas, de bloquinho em punho, encantadoras e exigentes, queriam saber de tudo. E dispensavam o almoço, pois “tinham que voltar para a redação”.

As mulheres estão se revelando mais interessadas, mais inteligentes, mais profissionais, mais curiosas, mais confiáveis, menos violentas e mais éticas que os homens. E são mais atraentes.

O que estará acontecendo com os brucutus? Conformaram-se em ficar para trás? Acomodaram-se? Ou simplesmente não enxergam?

Ou talvez estejamos apenas vendo as mulheres recuperando o tempo perdido durante os séculos em que foram subjugadas por uma sociedade machista?

Não sei. Mas a perspectiva de uma sociedade onde o poder seja compartilhado entre homens e mulheres me fascina. Ao atingir o equilíbrio, teremos um mundo bem diferente deste que conhecemos. Melhor, menos bruto e mais confiável.

No entanto, ao ler a tal pesquisa fiquei preocupado. Talvez não dê tempo para o equilíbrio. Faltarão homens. Pelo estudo da USP, o destino deles é virar fumaça.

Texto de Luciano Pires, em http://www.lucianopires.com.br/
Imagem: Tela de Pablo Picasso, "Les Demoiselles d'Avignon", 1907.

sábado, 16 de agosto de 2008

Lei Seca no Trânsito


Lei seca no trânsito Tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos e sair por aí pilotando uma máquina?

Gosto de beber e confesso sem o menor sentimento de culpa. Álcool, de vez em quando, em quantidade pequena, dá prazer sem fazer mal à maioria das pessoas. Aos sábados e domingos, quando estou de folga, tomo uma cachaça antes do almoço, hábito adquirido com os carcereiros da antiga Casa de Detenção. Difícil é escolher a marca, o Brasil produz variedade incrível. Tomo uma, ocasionalmente duas, jamais a terceira. Essa é a vantagem em relação às bebidas adocicadas que você bebe feito refresco, sem se dar conta das conseqüências. Cachaça impõe respeito, o usuário sabe com quem está lidando: exagerou, é vexame na certa.

Cerveja, tomo de vez em quando. O primeiro gole é um bálsamo para o espírito no calor, depois de um dia de trabalho e horas no trânsito, transporta o cidadão do inferno para o paraíso. O gole seguinte já não é igual, infelizmente. A segunda latinha decepciona, deixa até um resíduo amargo a terceira encharca.

Uísque e vodca, só tenho em casa para oferecer às visitas.

De vinho eu gosto, mas tomo pouco, porque pesa no estômago. Além disso, meu paladar primitivo não permite reconhecer notas de baunilha ou sabores trufados não tenho idéia do que seja uma trava sutil de tanino, nem o aroma de cassis pisado, nem o frescor de framboesas do campo. Em meu embotamento olfato-gustativo, faço coro com os que admitem apenas três comentários diante de um copo de vinho: é bom, é ruim, e bebe e não enche o saco.

Feita essa premissa, quero deixar claro ser a favor da chamada lei seca no trânsito. Sejamos sensatos, leitor, tem cabimento ingerir uma droga que altera os reflexos motores, o equilíbrio e a percepção espacial de objetos em movimento e sair por aí pilotando uma máquina na qual uma pequena desatenção pode trazer conseqüências fúnebres?Ainda que você não seja ridículo a ponto de afirmar que dirige melhor quando bebe, talvez possa dizer que meia garrafa de vinho, três chopes ou uísques não interferem na sua habilidade ao volante.

Tudo bem: vamos admitir que, no seu caso, seja verdade, que você tenha maior resistência aos efeitos neurológicos e comportamentais do álcool e que seria aprovado em qualquer teste de resposta motora.Imagino, entretanto, que você tenha idéia da diversidade existente entre os seres humanos.

Quantas mulheres e quantos homens cada um de nós conhece para os quais uma dose basta para transtorná-los?

Quantos, depois de duas cervejas, choram, abraçam os companheiros de mesa e fazem declarações de amizade inquebrantável? Está certo permitir que esses, fisiologicamente mais sensíveis à ação do álcool, saiam por aí colocando em perigo a vida alheia?

Como seria a lei, então? Deveria avaliar as aptidões metabólicas e os reflexos de cada um para selecionar quem estaria apto a dirigir alcoolizado? O Detran colocaria um adesivo em cada carro estabelecendo os limites de consumo de álcool para aquele motorista? Ou viria carimbado na carteira de habilitação?

Talvez você possa estar de acordo com a argumentação dos advogados que defendem os interesses dos proprietários de bares e casas noturnas: "A nova lei atenta contra a liberdade individual".

Aí, começo a desconfiar de sua perspicácia. Restrições à liberdade de beber num país que vende a dose de pinga a R$ 0,50? Há escassez de botequins nas cidades brasileiras, por acaso? Existe sociedade mais complacente com o abuso de álcool do que a nossa?Mas pode ser que você tenha preocupações sociais com a queda de movimento nos bares e com o desemprego no setor.

A julgar por essa lógica, vou mais longe. Como as estatísticas dos hospitais públicos têm demonstrado nos últimos fins de semana, poderá haver desemprego também entre motoristas de ambulâncias, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, agentes funerários, operários que fabricam cadeiras de rodas, sondas urinárias e outros dispositivos para deficientes físicos.

No ano passado, em nosso país, perderam a vida em acidentes de trânsito 17 mil pessoas. Ainda que apenas uma dessas mortes fosse evitada pela proibição de beber e dirigir, haveria justificativa plena para a criação da lei agora posta em prática.

Não é função do Estado proteger o cidadão contra o mal que ele faz a si mesmo. Quer beber até cair na sarjeta? Pode. Quer se jogar pela janela? Quem vai impedir?

Mas é dever inalienável do Estado protegê-lo contra o mal que terceiros possam causar a ele.

Texto do Dr. Dráuzio Varella, publicado no Jornal "Folha de São Paulo", em 19/07/2008

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O inacabado que há em mim


Eu me experimento inacabado. Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina. Sou como o rio em processo de vir a ser. A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes o tornam outro. O rio é a mistura de pequenos encontros. Eu sou feito de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo,
O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu me transformo em outros? Eu vivo para saber. O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afeta com seu poder de vivência. Empurra-me para reações inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.
Por vezes o cansaço me faz querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta. Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas se misturam e confundem o coração. É nesta hora em que me pego alimentando sonhos de cotidianos estreitos, previsíveis.
Mas quando me enxergo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil.
Melhor mesmo é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.
Eu sou inacabado. Preciso continuar.
Se a mim for concedido o direito de pausas repositoras, então já anuncio que eu continuo na vida. A trama de minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim. Um dia sou multidão; no outro sou solidão. Não quero ser multidão todo dia. Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só.
Eu sou assim. Sem culpas.


Texto do Pe. Fábio de Melo, de 07/05/2008
Imagem: encontro das águas dos rios Negro e Solimões

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

SIMPLIFICANDO A MEDITAÇÃO




Uma das formas de desmistificar a meditação é despi-la de seus conceitos exóticos – yoga, gurus, swamis, zen, iluminação. Basicamente, a melhor utilização de meditação é para aliviar dores crônicas e distúrbios relacionados ao estresse, desenvolvendo o conhecimento entre o corpo e a mente.

O primeiro exercício de meditar não é respiratório, tampouco sentar-se na postura perfeita de lótus, nem visualizar uma bela paisagem... É simplesmente comer alguma coisa – por exemplo, uma uva. Olhe a uva, sinta-a, cheire-a e com atenção leve-a à boca devagar, reparando que logo a saliva começa a ser secretada pelas glândulas salivares. Depois, ponha a uva dentro da boca e comece a saboreá-la... Em geral, as pessoas nunca saboreiam o que comem por se ocuparem somente em comer. A partir daí, pode-se começar a perceber que não estamos em contato com muitos momentos da vida, pois estamos ocupados demais de um lado para outro que não vivemos o presente. E a vida de uma pessoa é a soma de seus momentos presentes. Perdendo grande parte deles, talvez se percam realmente grande parte da infância e juventude dos filhos, magníficos pores-do-sol, a beleza do próprio corpo... Pode-se estar alheio a todos os tipos de experiências internas e externas, apenas porque se está demasiadamente preocupado com onde se quer chegar, o que se espera que aconteça ou não aconteça. Quando se presta atenção ao ato de comer, percebe-se que ele inclui numerosas coisas diferentes – o mastigar, o saborear, o funcionamento da língua... Tudo isso relacionado com a concentração. Comer devagar e degustar, ajudam a nos trazer para o momento presente. Depois, pode-se transferir a consciência da comida para a respiração, saboreando a respiração da mesma forma.A respiração é essencial em qualquer aspecto do treinamento da meditação. Quando se experimenta o fluxo da respiração, com freqüência surge a mesma reação verificada ao se comer a uva com consciência – inteiramente calmo e presente, concentrado no momento. No caso do estresse e da dor física, por exemplo, comece a respirar com a dor e com as tensões e ansiedades – dar a volta por cima da dor e do estresse e conviver com eles. Observando se consegue controlar as ondulações das sensações, você começa a perceber que o ir e vir dessas sensações tem vida própria. E também começa a aprender conviver com elas, a lidar com elas, ajudá-las, escutá-las, respeitá-las. Feito isso, é comum que desapareçam as sensações desagradáveis. Entrando no estresse e na dor, examinando ambos, observe as reações da mente – você descobre que há calma e paz dentro de algumas das situações mais duras da vida. A mente não desenvolvida nem treinada é geralmente muito dispersa. A mente vai para algum lugar, enquanto o corpo fica aqui. Nesse estado, não conseguimos atuar em nossa melhor forma. A mente parece ter vida própria, ela quer circular por lugares diferentes e fica muito difícil concentrar-se. Aprender a olhar em profundidade a conversa da mente com o corpo, é uma forma de se tornar mais consciente de seus padrões, libertar-se da conversa interior e acalmar-se. Em caso de síndrome do pânico, por exemplo, a função observadora identifica-se com o conteúdo medroso da mente. Então, o medo adquire vida própria e começa a tomar conta da existência. Mas se a pessoa recuar, olhar o medo, observar que ele costuma assumir a forma de pensamentos e impressões na mente e não identificar-se com esse conteúdo mental, passará para o posto de observação. Aprendendo a recuar de seus próprios processos mentais a ponto de renunciar às identificações fortes, inconscientes, como "eu, meu, minha”... Meditar significa perceber que a mente conversa constantemente. E essa conversa termina sendo a mola propulsora que nos motiva a maior parte do dia, em termos do que fazemos, ao que reagimos e como nos sentimos. A prática da meditação ensina as pessoas a se manterem no momento presente e observar calmamente as ocorrências no campo da sua consciência, como se fossem ondas surgindo na mente – já não sendo mais tomadas pelo conteúdo emocional, nem engolidas pelo terror. Compreende-se, então, que esses são pensamentos também, e retorna-se ao plexo solar, ao diafragma e à respiração. Se a mente se desgarra um milhão de vezes, simplesmente a trazemos de volta um milhão de vezes.Temos de criar algum tempo, todos os dias, que seja nosso tempo de simplesmente ser. E depois, quando surgirem situações estressantes, em que nos sintamos mais pressionados, haverá um momento no qual lidar com a situação, encontrando uma reserva de paz interior, estabilidade e discernimento.

O único momento que qualquer um de nós tem para crescer ou mudar, sentir ou aprender qualquer coisa é o momento presente. Mas existe um bocado de gente que corre ao redor do planeta, tentando chegar a algum lugar, sentindo-se muito infelizes, perdendo o momento presente, de modo quase obstinado, por não prestar atenção, sendo que poderiam sentir-se à vontade em seu próprio corpo neste exato momento. Em vez de viajar no piloto automático, podemos explorar o que aconteceria se começássemos a acender a chama de estarmos inteiramente vivos, aqui e agora.

Norberto José Teixeira

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Remexendo o Baú

Voces já perceberam que de vez em quando eu gosto de remexer o fundo do baú. Estava me lembrando de um seriado que eu amava de paixão e não perdia um. Vocês se lembram do "Mod Squad"

Série Mod Squad, produzida por Aaron Spelling, que tornou-se um marco na tevê americana por apresentar pela primeira vez, em seu elenco fixo, jovens hippies, desajustados. Em seus episódios, temas tabus como prostituição juvenil, drogas e gravidez precoce eram abordados freqüentemente.

Criada por Bud Ruskin, ex-detetive da polícia, Mod Squad teve como base as experiências reais do autor quando ele estava na ativa no Departamento de Polícia de Los Angeles, nos anos 50. Ruskin fazia parte de um grupo de jovens policiais que trabalhavam disfarçados para a Divisão de Narcóticos. Criada em 1960, a série levou oito anos para conseguir ser produzida. Foi um sucesso imediato e durou cinco temporadas com um total de 123 episódios e várias indicações ao prêmio Emmy.

Em 1979, o mesmo elenco voltou aos seus personagens para o filme reunion "A Volta de Mod Squad" (The Return of Mod Squad), mas não obteve o mesmo sucesso. Em 1999 a série ganhou uma versão cinematográfica com o ator Dennis Farina interpretando seu papel.


Por favor digam que se lembram rssss....

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Atrás de uma Borboleta Azul - Marina Silva


Florestas não são apenas estatísticas. Nem apenas objeto de negociações, de
disputa política, de teses, de ambições, de pranto. Antes de mais nada, são
florestas, um sistema de vida complexo e criativo. Têm cultura,
espiritualidade, economia, infra-estrutura, povos, leis, ciência e
tecnologia. E uma identidade tão forte que permanece como uma espécie de
radar impregnado nas percepções, no olhar, nos sentimentos, por mais longe
que se vá, por mais que se aprenda, conheça e admire as coisas do resto do
mundo.
Vivi no seringal Bagaço, no Acre, até os 16 anos. Tenho pela floresta muito
respeito e cuidado. Quem conhece a mata, não entra de peito aberto, mas com
muita sutileza. Ali estão o suprimento, a proteção e os perigos.
E também o mistério, algo não completamente revelado. Vidas e formas quase
imperceptíveis. O encontro, a cada momento, de um cipó diferente, uma raiz,
uma textura, uma cor, um cheiro. A descoberta dos sons. Até o vento na copa
das árvores compõe melodias únicas, de acordo com a resistência oferecida
pela castanheira, a samaúma, o açaizeiro.
Na minha infância, o som que achava mais bonito era o do período da florada
das castanheiras. A castanheira é polinizada por uma abelha enorme, o
mangangá. Imaginem centenas de mangangás entrando nas flores para tirar o
néctar! Como a flor é côncava, na hora de sair têm que fazer uma força
extraordinária nas asas, num vôo de frente pra trás, que provoca um barulho
de máquina potente e rouca. Uma de minhas primeiras lembranças do mundo é do barulho dos mangangás na copa da castanheira ao lado do terreiro da nossa
casa.
Embora para muitas pessoas a floresta possa parecer homogênea, sempre a vi
como espaço de diversidade. Gostava de prestar atenção em pequenas coisas,
como formigas levando folhas para o buraco. O caminho das formigas era bem
limpinho, parecia varrido. A estrada de seringa era cheia de folhas, tocos,
raízes, de espera-aí, um espinho de rama que arranha a perna quando a gente
passa. E eu imaginava como seria bom ter uma estrada de seringa limpa como o
caminho das formigas!
Outra formiga, a tucandeira, tem uma ferroada tão dolorosa que não dá nem
para explicar. Mas havia também uma razão mítica pra temê-la. Meu tio Pedro
Mendes, que durante muito tempo conviveu com os índios do Alto Madeira,
dizia que as tucandeiras viravam cipó de ambé. Se morresse uma na copa da
árvore, o corpo virava a planta e as pernas viravam os cipós. Quando se era
mordido de tucandeira, a primeira coisa a fazer era procurar um cipó de
ambé, cortar e beber a água porque ela era o antídoto. Não sei se era mesmo,
mas ajudava a aliviar a dor.
Meu tio ensinava coisas em que a gente acreditava profundamente. Ele dizia
que se a gente se perdesse e visse uma borboleta azul, era só segui-la que
ela nos levaria para a clareira mais próxima e de lá acharíamos o caminho de
casa. Essa borboleta é linda, enorme, quase do tamanho da mão. Nunca vi um
azul igual. Que, aliás, é marrom. Os pesquisadores do INPA descobriram que
ela tem uma engenharia de disposição das escamas das asas que faz com que,
na incidência de luz, se tornem azuis.
Depois entendi porque nos levava para casa. Porque gosta de pousar em frutas
como banana e mamão maduros, já bicadas pelo passarinho pipira. Quando sente fome, procura a primeira clareira onde haja um roçado de frutas. E lá perto, certamente haverá uma casa. São coisas que parecem crendice, mas há
conhecimento científico associado, obtido pelo mesmo princípio do método
acadêmico: observação sistemática dos fenômenos.
Antes de existir Ecologia como ramo do conhecimento ou ambientalismo como
movimento, o sistema da floresta já tinha suas normas, o seu 'Ibama'
natural, sua sustentabilidade, por meio de um código mítico que funcionava
como legislação de proteção da mata e das formas de vida que a habitavam.
Não se podia pescar mais do que o necessário, porque a mãe d´água afundaria
a canoa. Não se podia caçar demais porque o caboclinho do mato daria uma
surra. Não podia matar animal prenhe porque a pessoa ficaria panema, ou
seja, sem sorte. E para tirar o azar seria preciso um ritual tão complicado
que era preferível deixar o bicho em paz.
As práticas de acesso aos recursos da floresta, mediadas por esse código
mítico, acabavam levando a um alto grau de equilíbrio. Só se caçava quando
acabasse a carne seca pendurada no fumeiro do fogão. Logo, se não se podia
caçar em excesso, não havia carne para venda, só para o próprio consumo.
Contrariada essa norma, o caboclinho do mato castigaria o infrator com uma
surra de cipó de fogo com nó na ponta. A pessoa apanhava mas não conseguia
se defender porque não via a entidade. Ficava toda lanhada, com febre. Até o
cachorro, se acuava uma caça desnecessária, começava a pular e ganir de dor.
Era o caboclinho disciplinando o animal.
Os relatos eram inúmeros e me deixavam com muito medo de andar pelo mato.
Superava-o, em primeiro lugar, cumprindo à risca as leis míticas. Além
disso, desde criança tenho uma fé imensa e achava que, sendo justa com a
natureza, Deus me protegeria.
E mesmo com todo esse medo, minhas irmãs e eu gostávamos de andar pela
floresta porque lá a gente se divertia muito. Por exemplo, fazendo balanço
de um cipó muito resistente, em árvores que chegavam a trinta metros de
altura. Pescar nos igarapés, colher bacuri, abiu, taperebá, ingá, tucumã,
cajá, era muito bom.
Era um mundo de sabedoria tradicional, de organização social e cultural
inseparável da existência da floresta. Até que um dia chegaram as motoserras
e tratores e desconstituiram os códigos míticos, criando a necessidade
crescente do aparato legal que, por não estar dentro do homem, precisa de
instituições e mecanismos para implementá-lo. Não foi à toa que a primeira
grande operação de combate a desmatamento feita pela Polícia Federal,
envolvendo 480 agentes, no estado de Mato Grosso, foi batizada de Operação
Curupira.
Se abríssemos hoje nossa sensibilidade para os valores da floresta, talvez
se tornasse mais fácil redefinir o que entendemos por qualidade de vida.
Quem sabe, pode estar faltando uma enorme borboleta azul para nos conduzir
para casa, onde os frutos de nossas decisões sempre nos aguardam em mesa
farta.

Texto de Marina Silva - professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre
e ex-ministra do Meio Ambiente.
Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Dias dos Pais

Fiz este video para a Lahys e o Lorenzzo mas achei tão lindo que resolvi postar aqui.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Quando Acaba - Arnaldo Jabor


"Se a nossa vida é provisória,que seja linda e louca nossa história, pois o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." (Fernando Pessoa)


"Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim.
Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:
-Ah,terminei o namoro...
-Nossa, estavam juntos há tanto tempo.....-Cinco anos...que pena...acabou....
-é...não deu certo...
Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores. Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.
Às vezes voce não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro?
E não temos essa coisa completa.
Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.
Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.
Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.
Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.
Tudo junto, não vamos encontrar.
Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.

Pele é um bicho traiçoeiro.
Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.
E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...
Acho que o beijo é importante...e se o beijo bate...se joga...se não bate...mais um Martini, por favor...e vá dar uma volta.

Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra.
O outro tem o direito de não te querer.
Não brigue, não ligue, não dê pití.
Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar.... ou não.
Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.
O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.
Nada de drama.
Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você.
E vice versa.

Não fique com alguém por pena.
Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós. Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia? Gostar dói.

Muitas vezes você e vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração.....
Faz parte. Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....
A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.
Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.
Se não quer se envolver, namore uma planta. É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.
Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.
Nem todo beijo é para romancear.
E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar...
Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ?"

domingo, 3 de agosto de 2008

Mulher - Manual da Preservação da Espécie


Este texto foi feito a pedido da Mônica Waldvogel. Ela pediu a colaboração para a elaboração de um manual sobre a mulher. Como as mulheres estão desaparecendo aos poucos, a tradicional consciência ecológica do Diário da Tribo me fez lançar uma campanha de preservação muito mais importante que a do mico-leão-dourado, do tubarão branco ou da baleia azul.
'Salvem as Mulheres!'
Participe preservando a sua

Mulher
Manual de Preservação da Espécie
O desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está a fêmea da espécie humana. Tenho apenas um exemplar em casa, que mantenho com muito zelo e dedicação, mas na verdade acredito que é ela quem me mantém. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem as Mulheres!'. Tomem aqui os meus parcos conhecimentos em fisiologia da feminilidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:
Habitat
Mulher não pode ser mantida em cativeiro. Se for engaiolada, fugirá ou morrerá por dentro. Não há corrente que as prenda e as que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse de uma mulher. O que vai prendê-la a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente.
Alimentação Correta
Ninguém vive de vento. Mulher vive de carinho. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ela não receber de você vai pegar de outro. Beijos matinais e um 'eu te amo' no café da manhã as mantém viçosas e perfumadas durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não a deixe desidratar.Flores também fazem parte de seu cardápio. Mulher que não recebe flores murcha rapidamente e adquire traços masculinos como rispidez e brutalidade. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial. Música ambiente e um espumante num quarto de hotel são muito bem digeridos e ainda incentivam o acasalamento o que, além de preservar a espécie, facilitam a sua procriação.
Respeite a Natureza
Você não suporta TPM? Case-se com um homem. Mulheres menstruam, choram por nada, gostam de falar do próprio dia, discutir a relação.... Se quiser viver com uma mulher, prepare-se para isso. Não tolha a sua vaidade. É da mulher hidratar as mechas, pintar as unhas, passar batom, gastar o dia inteiro no salão de beleza, colecionar brincos, comprar sapatos, ficar horas escolhendo roupas no shopping. Só não incentive muito estes últimos pontos ou você criará um monstro consumista.
Cérebro Feminino não é um Mito
Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente o aposentaram!). Então, agüente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar bibelôs, tente se relacionar com uma mulher. Algumas vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja dessas, aprenda com elas e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com os homens, a inteligência não funciona como repelente para as mulheres.
Não Confunda as Subespécies
Mãe é a mulher que amamentou você e o ajudou a se transformar em adulto. Amante é a mulher que o transforma diariamente em homem. Cada uma tem o seu período de atuação e determinado grau de influência ao longo de sua vida. Trocar uma pela outra não só vai prejudicar você como destruirá o que há de melhor em ambas.Não faça sombra sobre ela. Se você quiser ser um grande homem tenha uma mulher ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ela brilhar você vai pegar um bronzeado. Porém,se ela estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda.
Aceite
Mulheres também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. O homem sábio alimenta os potenciais da parceira e os utiliza para motivar os próprios. Ele sabe que preservando e cultivando a mulher, ele estará salvando a si mesmo.
***
Texto de Ary Santos
Imagem: "Mulher na Praia" de Fábio de Castro Rüb

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Freud, Lacan e Charles Melman


Psicanálise: "A família está acabando"

O psicanalista francês Charles Melman, de 76 anos, foi íntimo colaborador de Jacques Lacan (1901-1981), o principal herdeiro de Sigmund Freud na França. Atento observador da realidade contemporânea, Melman usa os conceitos da psicanálise para interpretar as mudanças em curso na sociedade atual, como a dissolução do núcleo familiar. "Pela primeira vez na história, a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona que antropólogos e sociólogos não se interessem por isso", diz. A maneira original como ele aborda as transformações sociais o coloca na condição de um dos maiores nomes da psicanálise atualmente. Melman estará no Rio de Janeiro nesta semana para participar de um seminário promovido pela associação psicanalítica Tempo Freudiano e para lançar seu mais recente livro, *A Prática Psicanalítica Hoje*. De Paris, onde mora, Melman conversou com o repórter Ronaldo Soares, da sucursal do Rio de Janeiro de VEJA. Seguem os principais pontos da entrevista.

FIM DA FAMÍLIA - Assistimos hoje a um acontecimento que talvez não tenha precedente na história, que é a dissolução do grupo familiar. Pela primeira vez a instituição familiar está desaparecendo, e as conseqüências são imprevisíveis. Impressiona-me que os sociólogos e antropólogos não se interessem muito por esse fenômeno. Nesse processo, podemos constatar que o papel de autoridade do pai foi definitivamente demolido. Antes, o menino tinha na figura do pai um rival e um modelo. Um rival que despertava nele o gosto pela competição e um modelo na busca do prazer sexual. Já para a menina, tratava-se de um homem em quem ela procurava se completar. Hoje, com o declínio da figura paterna, nossos jovens podem estar menos propensos a batalhar pelo sucesso, a estabelecer um ideal de vida e até a descobrir o gosto pelo sexo.

JOVENS NO DIVÃ - Fico surpreso quando constato que, se há uma clientela interessada e engajada na psicanálise hoje em dia, é a dos jovens dos 18 aos 30 anos. Eles não procuram o psicanalista pelo fato de reprimirem seus desejos, mas porque não sabem o que desejam. É uma situação totalmente original em relação a Freud. Antes, a pessoa recorria à psicanálise porque não ousava realizar seus desejos. Hoje, principalmente no caso dos jovens, é por não saber o que desejar. Isso acontece porque nossos jovens foram criados em condições que promovem a busca rápida do prazer máximo e sem obrigações. O problema é que essa forma de lidar com o desejo produz situações de dificuldade para os jovens. Isso os leva ao divã.

BUSCA DO PRAZER - Muitos jovens encontram dificuldade para desenvolver plenamente uma vida sexual. Isso parece paradoxal, porque hoje em dia o sexo é muito acessível. Mas na verdade essa facilidade leva à busca de uma vida sexual sem compromisso, que proporcione um prazer ocasional, como o cinema, a bebida ou a dança. Há aí uma mudança interessante, talvez uma tentativa de se proteger em relação ao compromisso que uma vida sexual pode evocar. A idéia é aproveitar sem se engajar, mas isso impõe uma questão: eles aproveitam plenamente? Esse é o fenômeno que chamei de nova economia psíquica. Ele é fundado sobre o princípio da busca imediata de prazer máximo, sem freios nem restrições. Esses momentos de prazer, que proporcionam uma satisfação profunda, são vividos, mas não organizam a existência, nem o futuro. Ou seja, a existência é feita de uma sucessão de momentos sem nenhuma projeção no futuro, de momentos que podem desaparecer porque não terão continuidade.

EXISTÊNCIA VIRTUAL - O mundo virtual proporcionado pela internet faz sucesso por se tratar de um mundo lúdico. É um mundo coerente com a maneira de viver dos jovens, não exige engajamento nem compromisso. Ali qualquer um pode viver uma série de vidas sucessivas sem nenhum compromisso definitivo. As pessoas querem se distanciar da realidade não porque ela seja assustadora ou sem-graça, mas porque ela implica sempre um limite. Além disso, a realidade requer uma identidade, um objetivo mais ou menos claro na vida, ao passo que esses exercícios virtuais não pressupõem nenhuma identidade, nenhuma perspectiva e ainda derrubam todos os limites, incluindo os do pudor e da polidez.

TERAPIAS BREVES X PSICANÁLISE - A psicanálise não busca nenhum tipo de cura, não se propõe a isso. Está, portanto, na contramão da medicina, cuja história é rica em experiências baseadas na cura, com métodos variados. Alguns desses métodos, até pelos efeitos de sugestão, não são ineficazes. Mas é preciso saber se nós preferimos os métodos fundados sobre a sugestão ou se consideramos que é melhor privilegiar a livre atitude e o pensamento de cada pessoa, e assim estimular nela sua autonomia de julgamento. Nos períodos de crise moral, como o atual, proliferam os métodos que prometem a cura. Aos que escolhem esse caminho, só me resta desejar boa sorte.

ANTIDEPRESSIVOS E TRANQÜILIZANTES - A saúde hoje é algo que se calcula em bilhões de dólares. É compreensível e até inevitável que os laboratóriosestimulem o alto consumo de medicamentos como os psicotrópicos. A questão éque a hipermedicalização apresenta muito mais riscos do que vantagens. Nocaso das crianças, por exemplo, isso fica evidente. Sobretudo no que diz respeito ao uso precoce, recomendado pelos laboratórios, de neurolépticos (inibidores de distúrbios psicóticos). Esses medicamentos vêm sendo utilizados nas crianças para tratar distúrbios de personalidade ou combater problemas como insônia ou falta de apetite, entre outras coisas. Trata-se de algo absolutamente condenável, com implicações nefastas tanto sobre o desenvolvimento quanto sobre o estado físico da criança. Outra conseqüência grave da hipermedicalização é a predisposição do indivíduo para desenvolver dependência química. Primeiro, de remédios. Mas em seguida, possivelmente, de produtos fora do mercado legal. Com isso, poderemos chegar ao ponto em que a dependência vai parecer uma situação absolutamente normal, porque em muitos casos terá começado na infância.

PROZAC X FREUD - O Prozac e as idéias de Freud convivem. Às vezes de forma harmoniosa, às vezes não. A questão é: será que devemos apostar em um procedimento que vai tratar o conjunto dos problemas psíquicos pelas drogas? Ou devemos continuar a levar em conta, primeiramente, a livre escolha do sujeito e, em segundo lugar, o próprio papel do corpo? Nesse sentido, um produto como o Prozac desencadeia um curto-circuito. Dou um exemplo. Digamos que surja amanhã uma droga que, agindo sobre os centros cerebrais, produza um prazer sexual bem superior ao que se pode obter com o corpo. O que vamos preferir? Isso ou um acesso ao prazer sexual que continua a passar pelo corpo, mesmo não tendo a mesma qualidade do que pode ser proporcionado pela droga que atua diretamente sobre o cérebro? Eis o tipo de questão que o Prozac traz.

Fonte: Revista VEJA, edição 2057, de 23 de abril de 2008
Imagem: Tela de Lasar Segall, "Família"